Bom dia, Mirian
Não sei por que diabos acordo cedo, mas por Deus ou por ele acordo. Pode rebentar trovão na véspera, ressaca ou noite insone por aporrinhação de gente ou fazença de gente, acordo às cinco. Por trela de horário de verão, esse cedo tem parecença com mais cedo, dia remedando noite, o que me confere uma certa autoridade sobre o inusitado do sol esgarçando escuro renitente. Tem vez que espreito leitura, mas abajur treligado na calada desassossega mulher da gente. Aprendi, por conta de aperreação contada, que mulher define o dia pelo jeito que acorda. Quer viver bem com a do lado? É só num amofiná-la com sansa de problema no primeiro espreguiçar da dita. Cuide de apresentá-la ao dia pelo caminho seguro de um “bom dia, amor, eu te amo”. É mosca varada.
Sorrateiro, peregrino à mijada inaugural, não sem antes me certificar que num é obra de sonho transverso. Volto à cama já perscrutando o controle remoto, caminho mais curto pro rodapé do horário denunciado. Nos xêneis da vida, - rístori, discôveri, eienêmi -, tem sempre lá pelas quatro e blaus um documentariozinho de arregalar olho. Naquele desvão da madrugada, onde o mundo é só minha insônia, a travesseirada disforme, a letargia da Rosana, e os crimes dos burgos norte-americanos, aceito perplexo e indefeso o tacão performático da ciência forense dos xerifes de roliúde . Sob o império peremptório de jalecos decifrando defuntos, vou me arrastando neste mundo incruento de minha cama-território. E vou até que soe protocolarmente a vinheta higiênica do Bom Dia, Brasil.
Gosto do clima descontraído no jornal das manhãs dos brasileiros. Gosto especialmente do sorriso maracanãnico da Renata, impecável em seus tailleurs ou conjuntos de tons tímidos. Nem sua indignação fabricada a desonera de sua suavidade. O Renato, bem...o Renato indisfarça uma certa afetação, uma alegria injustificada pela densidade útil das notícias. Sua sobriedade regada a pão de mãe contrasta com o design desinibido de seus mais recentes óculos. Tudo sob a jurisdição daquela armação espevitada assume um tom eltonjohniano, contraponto exótico para a sisudez do texto e atitude. Escancara-se sua excitação quando um correspondente lhe traz matéria sobre as viúvas da Borgonha ou sobre a riqueza gótica de Chartres. Sobra-nos sempre a impressão de que o Renato, antes de dormir, pragueja aos céus sua revolta com o fato de não ser francês. Vez por tanto surge o Alexandre Garcia, conferindo ao texto rudeza construída por nuances de flexão e caretas, dispensáveis à boa frase, que responde por si mesma. É só reler o bom e velho Mencken. Muita vez fruo a autenticidade severa da Zileide, o gentebonismo do Chico Pinheiro.
O Bom Dia aposta num clima de vestiário de colégio, com uma descontração fabricada pela marcação indissimulável. No esperado Bom Dia de minhas insônias, o sério guerreia sem chances com o ritual cênico. E tudo vai fluindo como a esperança de um cochilo furtivo. Plasma em São Paulo, e a Mariana, cabelinho coquete, desfia sua timidez confortante em manequim correto, uma polegada acima das esquálidas repórteres que nos trazem as desentranças de nossa agenda irrecusável. A Mariana, no entanto, estará em qualquer circunstância mais confortável que o Escobar, a quem foi delegada a tarefa de substituir sua ponderação sportveana pelo texto bizarramente engraçadinho do esquete esportivo do Bom Dia.
Quando em alfa, numa sala nebulosa de minha consciência, confundo o real com delírio, surge a Mirian Leitão, cada vez mais protagonista num ambiente em que não lhe deveria restar apenas um palavrório de minuto. E a Mirian deita regra sobre as mazelas do mundo. E a Mirian fala, e fala, e fala. E sai de cena e volta. O Renato e a Renata conferem-lhe uma autoridade por baixo discutível, regada a porções de sabedoria de Wikipédia. Nada contra a Mirian, embora me roube inconsentidamente o sorriso da Renata. Nem me desagrada não ser a Mirian um prodígio de beleza, pois somos todos feios, encruados até a nuca com nossas desproporcionalidades. Economia é chato, e tentar conferir-lhe frescor pela explicação tatibitáti ou falsamente humorada só a torna mais chata ainda. Me lembra o Joelmir com seu mover de bochechas a validar a inteligência insustentável de uma frase jocosa.
A Mirian, com sua seriedade de laboratório, me expulsa de minhas chances de redormir. E o que é pior: regra geral, nada me acrescenta, se não o fato de me antecipar o café.
Beto Sales
2 comentários:
Oi Beto, você já conhece esse filme brasiliense:
www.filme-jogo.com
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