Acabo de pisar a soleira de casa após dois dias de fruição lúdica em Cavalcante, Goiás. Fui pro nada de fazer, jeito certo de aprender lugar. Cavalcante é um enclave de cerrado puro no âmago do Brasil Central, a uma braça da Bahia e do Tocantins. Mais: Cavalcante não se contenta em ser o que é pelo que simplesmente é. Hospeda a maior população quilombola do Brasil - os kalungas -, é reserva natural do planeta, chão mais antigo da Terra, com um bilhão e seiscentos milhões de anos de resistência e evolução. Resistiu íntegra à fúria insaciácel das expansões territoriais criminosas da soja e pecuária, forjando por lá um povo comprometido com um amor que não mais se ama. Ou se ama dissimulado, véspera do grito redentor. Chegar por lá tem o condão de nos inspirar aragem de vitória por jeito de contraponto a léguas de desolação niilista.
Abraçada generosamente pela monumentalidade extasiante da Chapada dos Veadeiros, deita-se entre bordas desenhadas pelos rios Tocantins e Paranã. Seu chão pedregoso guarda riquezas que aguam a boca dos que fustigam impiedosamente os desvãos insondáveis da pele vincada de uma circunferência idealizada, e mistérios que guiam a fé dos que crêem num arranjo mais justo e menos simplório de nossa curta viagem por este grão de universo.
Fui com os meus, que é o jeito certo de ir a qualquer lugar, e de lá não vou mais sair, ainda que por lá não esteja pisando.