sexta-feira, 15 de maio de 2009

Bom dia, Mirian

Bom dia, Mirian

Não sei por que diabos acordo cedo, mas por Deus ou por ele acordo. Pode rebentar trovão na véspera, ressaca ou noite insone por aporrinhação de gente ou fazença de gente, acordo às cinco. Por trela de horário de verão, esse cedo tem parecença com mais cedo, dia remedando noite, o que me confere uma certa autoridade sobre o inusitado do sol esgarçando escuro renitente. Tem vez que espreito leitura, mas abajur treligado na calada desassossega mulher da gente. Aprendi, por conta de aperreação contada, que mulher define o dia pelo jeito que acorda. Quer viver bem com a do lado? É só num amofiná-la com sansa de problema no primeiro espreguiçar da dita. Cuide de apresentá-la ao dia pelo caminho seguro de um “bom dia, amor, eu te amo”. É mosca varada.

Sorrateiro, peregrino à mijada inaugural, não sem antes me certificar que num é obra de sonho transverso. Volto à cama já perscrutando o controle remoto, caminho mais curto pro rodapé do horário denunciado. Nos xêneis da vida, - rístori, discôveri, eienêmi -, tem sempre lá pelas quatro e blaus um documentariozinho de arregalar olho. Naquele desvão da madrugada, onde o mundo é só minha insônia, a travesseirada disforme, a letargia da Rosana, e os crimes dos burgos norte-americanos, aceito perplexo e indefeso o tacão performático da ciência forense dos xerifes de roliúde . Sob o império peremptório de jalecos decifrando defuntos, vou me arrastando neste mundo incruento de minha cama-território. E vou até que soe protocolarmente a vinheta higiênica do Bom Dia, Brasil.

Gosto do clima descontraído no jornal das manhãs dos brasileiros. Gosto especialmente do sorriso maracanãnico da Renata, impecável em seus tailleurs ou conjuntos de tons tímidos. Nem sua indignação fabricada a desonera de sua suavidade. O Renato, bem...o Renato indisfarça uma certa afetação, uma alegria injustificada pela densidade útil das notícias. Sua sobriedade regada a pão de mãe contrasta com o design desinibido de seus mais recentes óculos. Tudo sob a jurisdição daquela armação espevitada assume um tom eltonjohniano, contraponto exótico para a sisudez do texto e atitude. Escancara-se sua excitação quando um correspondente lhe traz matéria sobre as viúvas da Borgonha ou sobre a riqueza gótica de Chartres. Sobra-nos sempre a impressão de que o Renato, antes de dormir, pragueja aos céus sua revolta com o fato de não ser francês. Vez por tanto surge o Alexandre Garcia, conferindo ao texto rudeza construída por nuances de flexão e caretas, dispensáveis à boa frase, que responde por si mesma. É só reler o bom e velho Mencken. Muita vez fruo a autenticidade severa da Zileide, o gentebonismo do Chico Pinheiro.

O Bom Dia aposta num clima de vestiário de colégio, com uma descontração fabricada pela marcação indissimulável. No esperado Bom Dia de minhas insônias, o sério guerreia sem chances com o ritual cênico. E tudo vai fluindo como a esperança de um cochilo furtivo. Plasma em São Paulo, e a Mariana, cabelinho coquete, desfia sua timidez confortante em manequim correto, uma polegada acima das esquálidas repórteres que nos trazem as desentranças de nossa agenda irrecusável. A Mariana, no entanto, estará em qualquer circunstância mais confortável que o Escobar, a quem foi delegada a tarefa de substituir sua ponderação sportveana pelo texto bizarramente engraçadinho do esquete esportivo do Bom Dia.

Quando em alfa, numa sala nebulosa de minha consciência, confundo o real com delírio, surge a Mirian Leitão, cada vez mais protagonista num ambiente em que não lhe deveria restar apenas um palavrório de minuto. E a Mirian deita regra sobre as mazelas do mundo. E a Mirian fala, e fala, e fala. E sai de cena e volta. O Renato e a Renata conferem-lhe uma autoridade por baixo discutível, regada a porções de sabedoria de Wikipédia. Nada contra a Mirian, embora me roube inconsentidamente o sorriso da Renata. Nem me desagrada não ser a Mirian um prodígio de beleza, pois somos todos feios, encruados até a nuca com nossas desproporcionalidades. Economia é chato, e tentar conferir-lhe frescor pela explicação tatibitáti ou falsamente humorada só a torna mais chata ainda. Me lembra o Joelmir com seu mover de bochechas a validar a inteligência insustentável de uma frase jocosa.

A Mirian, com sua seriedade de laboratório, me expulsa de minhas chances de redormir. E o que é pior: regra geral, nada me acrescenta, se não o fato de me antecipar o café.

Beto Sales

domingo, 14 de dezembro de 2008

Cavalcante

Acabo de pisar a soleira de casa após dois dias de fruição lúdica em Cavalcante, Goiás. Fui pro nada de fazer, jeito certo de aprender lugar. Cavalcante é um enclave de cerrado puro no âmago do Brasil Central, a uma braça da Bahia e do Tocantins. Mais: Cavalcante não se contenta em ser o que é pelo que simplesmente é. Hospeda a maior população quilombola do Brasil - os kalungas -, é reserva natural do planeta, chão mais antigo da Terra, com um bilhão e seiscentos milhões de anos de resistência e evolução. Resistiu íntegra à fúria insaciácel das expansões territoriais criminosas da soja e pecuária, forjando por lá um povo comprometido com um amor que não mais se ama. Ou se ama dissimulado, véspera do grito redentor. Chegar por lá tem o condão de nos inspirar aragem de vitória por jeito de contraponto a léguas de desolação niilista.

Abraçada generosamente pela monumentalidade extasiante da Chapada dos Veadeiros, deita-se entre bordas desenhadas pelos rios Tocantins e Paranã. Seu chão pedregoso guarda riquezas que aguam a boca dos que fustigam impiedosamente os desvãos insondáveis da pele vincada de uma circunferência idealizada, e mistérios que guiam a fé dos que crêem num arranjo mais justo e menos simplório de nossa curta viagem por este grão de universo. 

Fui com os meus, que é o jeito certo de ir a qualquer lugar, e de lá não vou mais sair, ainda que por lá não esteja pisando.

Beto Sales




domingo, 7 de dezembro de 2008

Burro convicto

Nada mais perigoso que um burro convicto.

Beto Sales

Tardelli

Esse episódio do Tardelli, na melhor das hipóteses, 
denuncia a promiscuidade que marca as relações entre o 
interesse público e o privado no esporte brasileiro.

Os clubes se alimentam de tratamento tributário 
diferenciado, e o prato é servido quente para os espertos 
se locupletarem nas nossas fuças, apaixonados 
incorrigíveis. A Madonna vai desfilar sua segunda idade 
anoréxica no Morumbi? E tome de ingressos para a 
plutocracia esportiva acobertar seus interesses escabrosos. 
É assim com as viagens mordômicas da CBF, com os coquetéis 
e regabofes movidos a dinheiro público.

O grande erro é aceitar a tese canhestra de que o clube é 
dos sócios. Se a teta generosa dos cofres públicos abastece 
a ganância das raposas, clube de futebol, no Brasil, é 
assunto de interesse social. Com punidade, responsabilidade 
criminal e o escambau. Com safado pagando por safadeza.

E ficam os forrest gumps falando em filiação em massa.

Beto Sales

sábado, 6 de dezembro de 2008

Crise

Se a Petrobras precisou de grana, imaginem eu.

BS

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Cretinos

Os cretinos são corporativos: defendem suas teses sem dar chance a que um sopro de inteligência lhes ameace;

Os cretinos são atentos: nada do que é irrelevante lhes escapa;

Os cretinos são solidários: socorrem-nos sem pestanejar na inlembrança de uma inutilidade; 

Os cretinos são aplicados: sua superficialidade custa-lhes uma vida de dedicação.

Beto Sales

domingo, 30 de novembro de 2008

Xavantinho e Indigenous

Pro ouvir música num sou de emeiação, num tranco fila: ouço o que adentra as orelhas. Despreconceituo feito um Ronaldo à socapa. Tenho cá comigo, entretanto, minhas gostanças, e recheio meu ai-pódi cum um miolo delas. De começo, muito brega seminal, o lamento bramido do lumpesinato banguela. Não trança de brega ornado a Armani, com chão de teclados pastosos ventriloquando violinos de perfumaria. Gosto do brega das feiras, das casas de beira, do salvo-conduto das prostitutas, dos cornos e dos corações esperançosos. A trilha dos que esperam pela via do improvável a mão estendida e quente dos que os tirem de algum lugar. Qualquer lugar seja. Ouço exotices como Marilena dos Teclados, Arenilson, Waldivânia, mais uma sansa deles. E, claro, Odair, Paulo Sergio e Amado Baptista. Músicas que contam histórias que nos captam pela sinceridade crua, pelo absoluto descomprometimento com pruridos. Traições confessadas, opções sexuais declaradas, promessas lenitivas e desabridas, confissões incorretas, traumas insuperados, penitências expiatórias, maus-gostos desreprimidos. Um rio de paixão em correnteza de cabeça d’água. Ouço por costume e me costumei de ouvir.

Fico por outro tocado de sentimento terno com a pungência da toada caipira, da viola rasqueada em pagode, galope ou moda. São também histórias tristes de chão perdido, de grotão abandonado, de amor separado por chão de milha e incerteza. A viola é uma espécie de cravo de colo, o terrão na conta pro deitar tristeza.

Ouço muito pelo mais africanagens, goianagens e rípi-rópi, e pelo mais de outros, mas ouço ainda por invés roquenrol de guitarra enguiçada. A geração mitológica comeu terra de palmo abaixo ou envelhou, mas voam por sobre os de hoje com o saber espreito de um falcão de milhagem alta. Dos novos, assunto Nirvana e Pearl Jam. Rascantemente melancólicos. O Govt Mule, Back Door Slam. Tem o Eric Gales, reencarnação bastarda do maior de todos, Jimi. O Steve Ray Vaughan, o Charles Duarte, o Kenny Sheppard. Mais uns que num digo que aqui num é lista. Por dia outro ouvi uns siouxs malucos que mandam um rock sujo de encompridar pêlo: Indigenous, o nome dos caras. Vale daunlodiar.

E assim, no meu tocador de arquivo, vão convivendo pela via da paz cósmica de um Tupã transnacional as vozes e-muladas de Xavantinho e de uns sioux de rama.

Sem lasquim de árvore derrubada, de pátria traída, de idéia abolida. Sem a cretinice do alinhamento automático ao da hora.

Toca pelo que toca. E vivo o bom.

Beto Sales