Me lembra infância aquela lata de abrir esquisito que vinha com uma chavinha ad-hoc. Rasgava a parte superior do trapézio 3D com virulenta eficiência. A lata escondia uma delícia à época insuspeita: um aglomerado de carne e gordura de batismo presuntada. O diabo daquele emplasto era gostoso bagaraio, cru ou frito, com pingos ferventes a se lançar sobre nós de sua plataforma frigideral. Depois vieram os tempos de histeria anti-gordura, e as latas da boa e velha presuntada foram se encolhendo em lugares constrangedores nas gôndolas de nossas igrejas carrefúricas, cada vez mais ascéticas.
Hoje leio na Veja que, já sob o véu sombrio da crise encardida em que os caras enfiaram um mundo atônito, os americanos voltaram a comer o tal do fiambre glosturado, a nossa prosaica presuntada.
Por aqui, quando o presunto precisava chegar às mesas dos baixarrenda, a indústria inventou um troço de um avermelhado tépido e gosto resínico a que deram o nome de apresuntado.
Já-já estaremos rasgando latas para sorver, heaalth-food às favas, uma supertrans apresuntadada.
Beto Sales
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